Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

O SORRISO DA ROSA

Dona Rosa foi um largo e sincero sorriso a habitar aquela “ex-cidadezinha”. Uma vez “encontrado”, jamais “esquecido”. Sim, ela sorria para todos, e como ninguém. Sorria para a calçada, para o tempo chuvoso, para a vizinha, para os vira-latas que a seguiam pela calçada, para o jardineiro e sua “clientela” de flores na praça.
Apesar da idade, caminhava sem parar. Depois do ato de sorrir, era esta atividade seu segundo “esporte” predileto. E como andava! Da casa para o jardim, do jardim para o mercado, do mercado à Prefeitura, e de lá, só Deus então saberia...
- Tão cedinho e já passeando, Dona Rosa! - comentava “seu” Hugo, o jornaleiro.
A resposta era um enorme sorriso que iluminava os olhos do vendedor. Já às sete da matina, entre todas as notícias vendidas na banca, o estado de saúde da “menina” era a primeira informação a merecer a atenção do povo.
- Ela passou agorinha. Foi buscar pão e leite - informava o jornaleiro, o “quase jornalista” de todas as horas.
- Mas essa dona Rosa... Sabe que no domingo, enquanto não sobe no “trem”, ela não sossega - dizia dona Maura, motorista do “trenzinho da alegria”...
E lá ia dona Rosa a bordo do “trenzinho”, a “girar” pela cidade, acenando com o polegar espichado para toda a gente - amigos, turistas desconhecidos, personagens do cotidiano e viajantes de passagem. Todos, sem exceção, levavam para casa “o melhor” dentre os suvenires da cidade, o sorriso de Rosa - uma alma incontida entre lábios gretados.
De lencinho azul na cabeça e vestido de bolinhas brancas (de fazenda bem cortada), fazia hora na estação rodoviária, apreciando o vai e vem dos ônibus. Não que esperasse pelos filhos, que já não via mesmo há anos. Não, não aguardava quem quer que fosse. Sua “missão” (e prazer) era distribuir as “boas vindas” a todos que chegassem, e o fazia - adivinhe! – sorrindo, com os lábios e com um par de olhinhos aquosos de pérola puída.
A alegria era “ruidosa” e sincera, todavia, desprovida de qualquer som. Dona Rosa era muda. E sua idade? Tampouco se conhecia. Uns diziam que tinha mais de oitenta; outros arriscavam “nos pra lá de noventa”.
Mas tão amarelado quanto seu registro de nascimento era a dentição com que “falava”. Um amarelo facilmente encontrado - e identificado - em todos os recantos daquela cidade. Nas folhas secas do outono, no queijo curado do armazém, na água lamacenta do córrego que viaja para o Tietê...
Dona Rosa era muda, tão muda quanto aquela natureza. De nascença? De desgosto? Jamais o saberemos. Fico apenas a imaginar que voz teria... Se é que houvesse no mundo voz capaz de “deliciar” a audição tão bem como o fazia, para os olhos, aquele sorriso “amarelo” (só mesmo no sentido literal).
E para os que ainda lamentavam sua mudez, melhor remédio era ouvir o velho boêmio Elias, “vizinho de sorriso”, lembrando Cartola: “... mas que bobagem, as rosas não falam...”
Falavam-lhe, sim, os outros. E as cenas iam se repetindo ao longo do dia: - Bom dia!... Boa tarde!... Boa noite dona Rosa!... Mas o sorriso da Rosa!... - comentavam em seguida. E mais sorrisos se abriam; “resposta” comum àqueles que bem a conheciam.
Dona Rosa era “a paisagem”, a “chave da cidade”, um patrimônio daquela boa e velha “ex-cidadezinha”. Esta, por sua vez, já não mais como a de outrora, dos tempos de dona Rosa...
Muitas cadeiras de calçada, de quem “parava”, deram lugar para o turismo de quem “passa” (“preço” cobrado pelos benefícios do progresso, é claro). A pequenina praça da Matriz, cuja quietude subia ao coreto logo após a apresentação da bandinha, atualmente chacoalha com o “roncar de motores” e o “cantar de pneus” dos automóveis. Hoje, a viola que “vaza” dos bares é menos audível que o porta-malas aberto de qualquer carro estacionado quase sobre a calçada... Só mesmo o “som” daquele sorriso - o sorriso da Rosa - ainda podia ser ouvido “mais longe”.
Os dentes, naquela boca, desconheciam a falsidade. Não me lembro de vê-la chorar, apesar dos reveses da vida. Tivera dez filhos; “enterrara” cinco deles (“obras”, como mais tarde se soube, de uma tragédia familiar, e não do tempo). Já não tinha o marido. Os filhos, netos e bisnetos moravam longe, “noutro país do Brasil”, como dizia “seu” Elias, aquele da boêmia.
Mas nem mesmo todas as tristezas do mundo foram capazes de conter “aquele” sorriso, aquela primavera de natureza secreta, serena e inquebrantável, tal qual as flores que perfumam enquanto “sustentam” os próprios espinhos...
Ela sorriu, sorriu e sorriu durante sua longa vida. Sorriu até que o tempo lhe “sorrisse” também, apontando-lhe uma nova estrada, e levando a luz de seu sorriso para que "a noite, por fim, chegasse a seus olhos". Tempo esse que também nos grava na memória sua lição “muda” de vida. A saber: o sorriso é o mais simples dos gestos. Um “RG”, um “crachá” permanente daqueles que, anonimamente, revelam-se (e relevam-se) nos labores do mundo.
Dona Rosa tinha essa “identidade”; um dom “divino” de “ser humano”. Ensinou, com esse jeitinho, uma “ex-cidadezinha” inteira a sorrir. Demonstrou a utilidade pública de um sorriso que, penso eu, deveria ser “aprendido” antes de qualquer abecedário, antes mesmo da letra “A”. Porque um sorriso bem “sorrido” precede a própria comunicação humana. Como dizia o velho e boêmio Elias: “Depois de um ‘bom dia!’ da Rosa, o que mais a gente tinha pra dizer? Às vezes, a palavra é tudo o que se tem de mais desnecessário pra se falar.”

Quarta-feira, Julho 13, 2005

O segundo correto de um dia errado

Certo dia, acordei sem pensar... É, acordei sem pensar! Ou talvez nem tenha acordado ainda. O que sei é que pude abrir os olhos e deixar o sol entrar pelas vidraças de minhas retinas... A luz, então, pousou sobre a rotina; era dia. Levantei-me, escovei os cabelos e penteei os dentes, tomei o jejum e comi a fé da manhã (rezei para que voltasse a pensar).

Saí para o trabalho que, na mesmo hora, tocava a campainha de casa... Não! O trabalho, na verdade, acabava de se levantar da minha cama (dormira "de valete" comigo. Se trepamos muito, não me lembro). Não, não era ele à porta. Era o jornal. Meu despertador que, de praxe, me acorda todas as manhãs, com o barulho que o peso do mundo (impresso em suas páginas) faz ao bater na janela do meu quarto (quando arremessado pelo motoqueiro, aquele bom chato). Mas àquele dia, meu "papiro" cheio de novidades estava atrasado... Seria culpa de meu "não-pensar"?

Abrir suas páginas... Vi sorrisos, vi gritos, sangue e compromissos...
Vi o futuro do país, por apenas um segundo, nas mãos de quem sabe o que diz e faz; gente que trabalha, anonimamente, cultivando a terra, os pensamentos, a cultura, os braços de todo fomento e riqueza brasileiros (material e imaterial)...
Terminado aquele segundo, tive de vislumbrar o mesmo futuro nas garras de um batalhão de cínicos. E pelo resto do dia!!!
Vi a cor do dinheiro. Aquela cor que, se na mão é vendaval, imagine só nos olhos, nos ouvidos!
Digo isso porque nunca se viu e se ouviu falar tanto de cifras milionárias como agora... Haja dinheiro nesse Brasil, dinheiro de gente como a gente, desviado, lavado, deslavado por senadores e deputados que enriquecem às nossas custas. Quero matá-los! Mas não terei chances a menos que morra de tanto trabalhar pensando em "como fazer?"... e pensar é o que não tenho tempo de fazer...

Mas chega de divagações. Tenho que sair sem dinheiro pra trabalhar, tenho que procurar emprego em todos os aposentos dessa minha cidade. Tenho que morrer antes do tempo, tenho que espantar as carpideiras de meus pensamentos. Tenho que sorrir e acreditar que ainda nem nasci, por isso ainda não posso pensar.

Só quero de volta "aquele segundo" em que vi, no jornal, um “mundo microscópico” trabalhando “nos fundos”. Quero fazer parte desse “punhado” (quem sabe amanhã um "bom bocado") e, para isso, será preciso “resgatar aquele segundo” em que muito se pode fazer, a começar admitindo que “pensar” é mais do que repetir, todos os dias, o que “nos dão” para dizer e ouvir.
E fim de papo... Por enquanto...

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Bem-(ou Mal)-vindos!!!... Não importa, desde que venham...

Este é um ciberespaço que "dá para a porta dos fundos" da internet... Pra tudo previamente censurado antes mesmos de “pensado”...
A paz que vivemos hoje é uma “guerra de ninar”, que faz com que nos iludamos ao cobrar do futuro uma espécie de contrato de pretação de serviços, uma “obrigação óbvia” (só na cabeça da gente) de nos receber, de braços abertos, amanhã, depois de amanhã, semana que vem... até, com o perdão da palavra, à velhice (palavrão do tempos modernos!)...

Por tudo e nada disso, declaro guerra à pasmaceira!!!
E para essa “guerra ao terror” das zonas medíocres das mídias eletrônicas (encampada também por muitos outros escrevinhadores do Movimento dos Sem Vozeirão - MSV), ofereço-lhes "A Pa'z'maceira!"

Em breve este “puxadinho”... este “quartinho de empregada” das atividades diárias de um cérebro nível-humano-médio (ocupado em missões intelectuais de grande monta, tais como ganhar dinheiro e não morrer de fome), estará com suas “paredes” forradas com palavras, idéias, contos e tudo quanto é “letra reciclada dos lixões de documentos, formulários e papéis que esta mão morta, sem botar reparo, é obrigada a assinar”. "Rubrica" pode parecer nome de égua, mas a minha (égua ou assinatura, tanto faz) não quer mais servir de arreio pra tanta “burrocracia”, pelo menos nos domingos, das sete às oito horas da noite...

Aguardem... O marasmo (pelo menos o meu) está com os dias contados.

A “Pa´z´maceira” vem aí...