Dona Rosa foi um largo e sincero sorriso a habitar aquela “ex-cidadezinha”. Uma vez “encontrado”, jamais “esquecido”. Sim, ela sorria para todos, e como ninguém. Sorria para a calçada, para o tempo chuvoso, para a vizinha, para os vira-latas que a seguiam pela calçada, para o jardineiro e sua “clientela” de flores na praça.
Apesar da idade, caminhava sem parar. Depois do ato de sorrir, era esta atividade seu segundo “esporte” predileto. E como andava! Da casa para o jardim, do jardim para o mercado, do mercado à Prefeitura, e de lá, só Deus então saberia...
- Tão cedinho e já passeando, Dona Rosa! - comentava “seu” Hugo, o jornaleiro.
A resposta era um enorme sorriso que iluminava os olhos do vendedor. Já às sete da matina, entre todas as notícias vendidas na banca, o estado de saúde da “menina” era a primeira informação a merecer a atenção do povo.
- Ela passou agorinha. Foi buscar pão e leite - informava o jornaleiro, o “quase jornalista” de todas as horas.
- Mas essa dona Rosa... Sabe que no domingo, enquanto não sobe no “trem”, ela não sossega - dizia dona Maura, motorista do “trenzinho da alegria”...
E lá ia dona Rosa a bordo do “trenzinho”, a “girar” pela cidade, acenando com o polegar espichado para toda a gente - amigos, turistas desconhecidos, personagens do cotidiano e viajantes de passagem. Todos, sem exceção, levavam para casa “o melhor” dentre os suvenires da cidade, o sorriso de Rosa - uma alma incontida entre lábios gretados.
De lencinho azul na cabeça e vestido de bolinhas brancas (de fazenda bem cortada), fazia hora na estação rodoviária, apreciando o vai e vem dos ônibus. Não que esperasse pelos filhos, que já não via mesmo há anos. Não, não aguardava quem quer que fosse. Sua “missão” (e prazer) era distribuir as “boas vindas” a todos que chegassem, e o fazia - adivinhe! – sorrindo, com os lábios e com um par de olhinhos aquosos de pérola puída.
A alegria era “ruidosa” e sincera, todavia, desprovida de qualquer som. Dona Rosa era muda. E sua idade? Tampouco se conhecia. Uns diziam que tinha mais de oitenta; outros arriscavam “nos pra lá de noventa”.
Mas tão amarelado quanto seu registro de nascimento era a dentição com que “falava”. Um amarelo facilmente encontrado - e identificado - em todos os recantos daquela cidade. Nas folhas secas do outono, no queijo curado do armazém, na água lamacenta do córrego que viaja para o Tietê...
Dona Rosa era muda, tão muda quanto aquela natureza. De nascença? De desgosto? Jamais o saberemos. Fico apenas a imaginar que voz teria... Se é que houvesse no mundo voz capaz de “deliciar” a audição tão bem como o fazia, para os olhos, aquele sorriso “amarelo” (só mesmo no sentido literal).
E para os que ainda lamentavam sua mudez, melhor remédio era ouvir o velho boêmio Elias, “vizinho de sorriso”, lembrando Cartola: “... mas que bobagem, as rosas não falam...”
Falavam-lhe, sim, os outros. E as cenas iam se repetindo ao longo do dia: - Bom dia!... Boa tarde!... Boa noite dona Rosa!... Mas o sorriso da Rosa!... - comentavam em seguida. E mais sorrisos se abriam; “resposta” comum àqueles que bem a conheciam.
Dona Rosa era “a paisagem”, a “chave da cidade”, um patrimônio daquela boa e velha “ex-cidadezinha”. Esta, por sua vez, já não mais como a de outrora, dos tempos de dona Rosa...
Muitas cadeiras de calçada, de quem “parava”, deram lugar para o turismo de quem “passa” (“preço” cobrado pelos benefícios do progresso, é claro). A pequenina praça da Matriz, cuja quietude subia ao coreto logo após a apresentação da bandinha, atualmente chacoalha com o “roncar de motores” e o “cantar de pneus” dos automóveis. Hoje, a viola que “vaza” dos bares é menos audível que o porta-malas aberto de qualquer carro estacionado quase sobre a calçada... Só mesmo o “som” daquele sorriso - o sorriso da Rosa - ainda podia ser ouvido “mais longe”.
Os dentes, naquela boca, desconheciam a falsidade. Não me lembro de vê-la chorar, apesar dos reveses da vida. Tivera dez filhos; “enterrara” cinco deles (“obras”, como mais tarde se soube, de uma tragédia familiar, e não do tempo). Já não tinha o marido. Os filhos, netos e bisnetos moravam longe, “noutro país do Brasil”, como dizia “seu” Elias, aquele da boêmia.
Mas nem mesmo todas as tristezas do mundo foram capazes de conter “aquele” sorriso, aquela primavera de natureza secreta, serena e inquebrantável, tal qual as flores que perfumam enquanto “sustentam” os próprios espinhos...
Ela sorriu, sorriu e sorriu durante sua longa vida. Sorriu até que o tempo lhe “sorrisse” também, apontando-lhe uma nova estrada, e levando a luz de seu sorriso para que "a noite, por fim, chegasse a seus olhos". Tempo esse que também nos grava na memória sua lição “muda” de vida. A saber: o sorriso é o mais simples dos gestos. Um “RG”, um “crachá” permanente daqueles que, anonimamente, revelam-se (e relevam-se) nos labores do mundo.
Dona Rosa tinha essa “identidade”; um dom “divino” de “ser humano”. Ensinou, com esse jeitinho, uma “ex-cidadezinha” inteira a sorrir. Demonstrou a utilidade pública de um sorriso que, penso eu, deveria ser “aprendido” antes de qualquer abecedário, antes mesmo da letra “A”. Porque um sorriso bem “sorrido” precede a própria comunicação humana. Como dizia o velho e boêmio Elias: “Depois de um ‘bom dia!’ da Rosa, o que mais a gente tinha pra dizer? Às vezes, a palavra é tudo o que se tem de mais desnecessário pra se falar.”
